O Irã está pronto para "negociações justas", mas também "preparado para uma guerra", afirmou o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abás Araqchi, nesta segunda-feira, mais de duas semanas depois do início dos protestos que já deixaram centenas de mortos.
A declaração acontece dias após as constantes ameaças do presidente americano, Donald Trump, de que os Estados Unidos podem atacar "muito duramente" o país caso manifestantes fossem mortos — não só pelo meio militar, mas também com sanções e ações cibernéticas, como revelado pelo jornal americano New York Times no domingo.
— A República Islâmica do Irã não busca a guerra, mas está totalmente preparada para ela — afirmou Araqchi durante um discurso para embaixadores estrangeiros em Teerã, alertando os adversários contra qualquer "erro de cálculo". — Também estamos prontos para negociações justas, com igualdade de direitos e baseadas no respeito mútuo.
Além disso, o ministro também assegurou que as forças de segurança têm "controle total" do país, acusando Israel e os EUA de fomentarem os protestos. A BBC Persian, porém, informou que a TV estatal e outros veículos de comunicação iranianos estão tentando projetar a ideia de que a situação está "calma" desde a noite passada na capital, Teerã.
Desde 28 de dezembro, os atos se intensificaram e se espalharam por mais de 100 cidades e vilas em todas as 31 províncias do Irã, de acordo com grupos de direitos humanos. Apesar do bloqueio quase total da internet imposto pelas autoridades na última quinta-feira, que dificulta a comunicação e a verificação das informações, imagens e vídeos que circulam nas redes sociais mostram centenas de pessoas nas ruas, além de incêndios em equipamentos públicos e corpos enfileirados dentro de sacos do lado de fora de hospitais.
Araghchi ainda reiterou as alegações do governo de que "manifestantes e terroristas" mataram policiais e civis e destruíram propriedades públicas usando "violência ao estilo do Daesh", referindo-se à sigla árabe para Estado Islâmico.
No domingo, a bordo do "Air Force One", o avião presidencial dos EUA, Trump já havia adiantado sobre a negociação com Teerã, confirmada pelo chanceler iraniano nesta segunda. O republicano afirmou que representantes do regime procuraram autoridades americanas, mas alertou que Washington "pode ter que agir antes da reunião".
— Estamos analisando isso com muita seriedade — afirmou o presidente. — Os militares estão analisando isso, e estamos considerando algumas opções muito fortes. Tomaremos uma decisão.
Também nesta segunda-feira, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, afirmou que se opõe à "interferência" estrangeira em outros países.
— Conclamamos todas as partes a tomarem mais medidas que promovam a paz e a estabilidade no Oriente Médio — disse Ning.
Segundo a ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega, ao menos 192 manifestantes morreram desde o início das mobilizações, incluindo nove menores de idade. Já de acordo com a Hrana, ONG sediada nos EUA, pelo menos 538 pessoas teriam sido mortas, sendo 490 manifestantes e 48 membros de forças de segurança. O número de presos, conforme a mesma fonte, ultrapassa os 10 mil.
Já nesta segunda, o número de mortos, segundo um grupo de direitos humanos, disparou. De acordo com a entidade, "durante a repressão" do regime contra os protestos, ao menos 648 manifestantes foram mortos. As organizações também apontam para hospitais sobrecarregados, falta de sangue e feridos com disparos.
A crise
A crise crescente, que começou como um protesto contra problemas econômicos no final do ano passado, representa o que alguns especialistas consideram um dos maiores desafios às autoridades desde a Revolução Islâmica, em 1979, que depôs um monarca pró-EUA. As manifestações rapidamente se transformaram em um movimento de contestação ao regime teocrático que governa o Irã há quase cinco décadas.
As autoridades iranianas afirmam compreender as reivindicações econômicas dos manifestantes, mas criticam os “agitadores”, que, segundo eles, estariam sendo instrumentalizados por potências estrangeiras, lideradas pelos EUA e Israel. Nesta segunda-feira, após inicialmente adotar um tom mais compreensivo frente aos protestos, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, convocou a população a participar de uma “marcha de resistência” em todo o país, para denunciar a violência cometida, segundo ele, por “criminosos terroristas urbanos”.
A televisão estatal iraniana exibiu imagens de manifestantes aglomerados na Praça Enghelab (Praça da "Revolução Islâmica"), na capital. A emissora classificou a manifestação como um "levante iraniano contra o terrorismo americano-sionista".
O chefe do Judiciário iraniano, Gholamhossein Mohseni-Ejei, reiterou as ameaças de punição "rápida e severa" para os envolvidos nos protestos, alertando os tribunais para que não mostrem clemência com o que ele chama de "manifestantes violentos". Na última sexta-feira, Mohseni-Ejei afirmou que "todos os manifestantes violentos" poderiam enfrentar pena de morte.
Cânticos em apoio à monarquia
Um dos fatores que contribuíram para a mobilização em massa nos últimos quatro dias foram os apelos às ruas feitos por alguns grupos ativistas e por Reza Pahlavi, filho do xá deposto na revolução de 1979. Vídeos de diversos protestos mostram que cânticos em apoio aos Pahlavi — algo impensável para os movimentos de protesto iranianos da última década — estão se tornando cada vez mais comuns. Pahlavi, que vive exilado, pediu aos manifestantes, em uma declaração em vídeo, que não abandonassem as ruas.
— O presidente Trump, como líder do mundo livre, observou atentamente sua coragem indescritível e declarou que está pronto para ajudá-los.
No domingo, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, advertiu que bases militares e centros navais dos Estados Unidos seriam considerados “alvos legítimos” caso Washington realize um ataque. A declaração reforçou o risco de escalada em uma região já marcada por tensões elevadas, especialmente após confrontos recentes envolvendo Israel, Síria e grupos armados apoiados por Teerã.
Além da incerteza sobre uma nova guerra no Irã, como a de 12 dias que aconteceu em junho do ano passado, muitos países vizinhos temem que o país, com mais de 90 milhões de habitantes, possa mergulhar em uma guerra civil semelhante à da Síria, com levantes separatistas em províncias povoadas por curdos, balúchis e outras minorias, que se espalhariam para além das fronteiras. (Com O Globo e agências internacionais - Teerã)
