A troca de informações entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado pode trazer desdobramentos relevantes para a forma como facções brasileiras são tratadas no cenário internacional.
Na sexta-feira (10), o governo federal anunciou, por meio do Ministério da Fazenda, um acordo de cooperação mútua entre a Receita Federal e a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA para enfrentar o tráfico internacional de armas e drogas.
A iniciativa acende um alerta porque ocorre em meio a discussões, nos Estados Unidos, sobre a possível classificação de PCC e CV como grupos terroristas.
Especialistas ouvidos pelo R7 avaliam que o acordo pode influenciar esse debate ao ampliar a produção e o compartilhamento de informações sobre a atuação internacional dessas facções.
Segundo o internacionalista João Alfredo Nyegray, a cooperação tende a alterar a percepção norte-americana, menos por mudar a natureza dos grupos e mais por fortalecer as evidências sobre sua atuação transnacional.
“Com troca de informações em tempo real e operações coordenadas, aumenta-se a densidade probatória sobre essas organizações. O ponto central, para Washington, não é apenas a violência interna, mas a capacidade de demonstrar conexões com tráfico de armas, drogas, lavagem de dinheiro e logística internacional”, afirma.
Nyegray lembra que, em maio de 2025, autoridades brasileiras reconheceram que o Departamento de Estado dos EUA pressionou o Brasil a classificar essas facções como terroristas, citando a presença delas em território americano e vínculos com crimes transnacionais. Para ele, o novo acordo fortalece essa possibilidade.
“Com um arranjo institucional mais robusto, os EUA passam a ter condições de sustentar essa leitura de forma menos especulativa e mais documental”, diz. “A cooperação Brasil-EUA não é causa suficiente, mas aumenta a plausibilidade dessa classificação ao ajudar a construir um dossiê consistente.”
O especialista aponta ainda uma possível contradição na posição do governo brasileiro. “Ao rejeitar a classificação como terrorismo, mas aprofundar a integração de inteligência com Washington, o Brasil ajuda a produzir a base informacional que pode sustentar essa narrativa”, completa.
Na mesma linha, o jurista Murilo Borsio Bataglia avalia que a iniciativa reforça a percepção internacional de que essas organizações extrapolam o território nacional. “O Brasil passa a influenciar, ainda que de forma indireta, a maneira como essas organizações são compreendidas globalmente”, afirma. (R7)
