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Só na Sé!

28/09/2016 - 14h58

Raquel Anderson

Democraticamente um grupo de moradores de rua se aninham sobre um grande colchão na Praça da Sé!

Ali, ao léu, deitados ou sentados no enorme colchão que guarda boa aparência!


É, no mínimo instigante... passam horas ali, a repousar, prosear, a dividirem o sono, a preguiça, o medo, a fome, a doença e, sobretudo, a falta de perspectivas!


Contrastando com a linda arquitetura neogótica da catedral, alheios aos homens de terno e as executivas ou trabalhadores humildes que caminham apressadamente pela Praça, eles se ajeitam, se abrigam e se aquecem em cobertores sujos, tal qual eles se encontram, sujos, mulambentos, famintos e, para muitos bem nascidos, estorvam a paisagem, atrapalham a boa visão da praça, da catedral, do prisma hexagonal do marco zero, das palmeiras imperiais e o acesso ao metrô.


Ouve-se resmungos e comentários preconceituosos dos transeuntes minuto a minuto.
Por que será que eles levaram um enorme colchão para a Praça?


Nada pretendem, certamente, a não ser exercerem o que ainda lhes é, limitadamente, permitido fazer, repousarem, relaxarem....


Julgamentos e esteriótipos já não os atingem, temem apenas represálias da polícia paulistana que não "os alisa".


Desnecessariamente um policial agrediu a bofetadas um mendigo idoso, negro, tão somente porque ele se aproximou do policial e o abordou....com a bofetada ele caiu, bateu a cabeça na calçada acimentada, rústica e machucou-se! Essa impotente relatora, indignada, esvaiu-se em lágrimas e questionou o policial sobre sua atitude, ele abruptamente ordenou-me: 


-"Vaza daqui, sua idiota". 


Talvez um dos maiores desafios humanos seja o da coragem!! Acovardei-me, senti medo, ameaça, afinal, vivemos uma conjuntura política e social que verdadeiramente apavora! 


Envergonho-me pela minha covardia, obviamente, contudo, minhas limitações físicas me impedem de realizar alguns atos, como correr, por exemplo.


Fui até a catedral e procurei a equipe de Serviço Social que ali faz plantão, estavam em reunião!
Fiquei com a ideia de me pronunciar a respeito, titubeei, escrevi uma frase, um parágrafo, apaguei, desisti, temi apresentar um texto clichê, mas, revi minha inquietude e aqui estou....ainda que eu seja uma provinciana, jacu, não me importo e me expresso!


Fiquei com vontade de fotografar aqueles indigentes no colchão, pensei na invasão de suas privacidades, no direito de imagem, fiz de conta que os fotografava para ver qual seria a reação deles, nesse momento,acometeu-me um lapso de coragem, um deles me enfrentou:
-"Que é isso tia? quer tirar fotos da nossa vida de desgraça?"


Eu, de longe: 


-Eu só fingi que tirei, apenas para chamar a atenção de vocês, só o farei se vocês permitirem, mas aqui, de longe, respeito a todos!


-"De longe mesmo tia, depois vá embora!"


O colchão exerce apelo de identidade importante, comerciais modernos os remetem ao aconchego do lar, ao amor e ao sono repousante, aos belos sonhos, onde, via de regra, nos deitamos cheirosos, realizados, bem nutridos, há colchões,atualmente, que passam de dez mil reais!


Colocar um enorme colchão no marco imponente e importante de uma metrópole é uma atitude ousada, de enfrentamento!


Num país onde a vida é banalizada e ateia-se fogo nas pessoas, se impor com um colchão foi uma grande sacada!


A dor é irmã da irreverência! A necessidade é ilógica!

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