O navio de mísseis guiados americano USS Lake Erie entrou no Canal do Panamá vindo do Oceano Pacífico na noite de sexta-feira, rumo ao Caribe, em meio a uma mobilização naval dos Estados Unidos próxima à costa da Venezuela.
Maduro, que tem explorado o envio de frota dos EUA ao Caribe para tentar reforçar apoio interno, chamou a movimentação de um “cerco hostil que viola a Carta da ONU” e vem promovendo atos patrióticos com soldados, enquanto Washington não reconhece sua legitimidade, o acusa de envolvimento no narcotráfico e mantém sobre ele uma recompensa de US$ 50 milhões.
De acordo com os jornalistas da AFP que estavam no local, o cruzeiro passou pela Eclusa de Pedro Miguel por volta das 21h30 (horário local) e continuou navegando em direção ao Atlântico em uma viagem de 80 km, que dura cerca de oito horas. O Lake Erie, com o número 70 pintado em letras brancas em seu casco, está atracado há dois dias em um cais no Porto Rodman, na entrada do canal pelo Pacífico. Ele em 173 metros de comprimento por 10 metros de largura, desloca 9.800 toneladas e fica baseado no porto de San Diego, Califórnia.
À medida que o navio americano se aproximava da Ponte Centennial, atravessando-a sob a lua crescente, as luzes que iluminavam a eclusa, adjacente a uma rodovia movimentada e escura perto da capital panamenha, refletiam-se nas águas do canal.
Algumas famílias, surpresas, observaram o navio de guerra passar por Pedro Miguel de um mirante do lado de fora de uma cerca de arame farpado às margens do canal.
— Eu não sabia que o navio ia passar. Chegamos por acaso e o encontramos. Fiquei surpreso — disse à AFP Alfredo Cedeño, técnico de saúde de 32 anos que estava com três familiares e tirou fotos do navio com seu celular.
Crise entre EUA e Venezuela
Nos últimos dias, o governo chavista organizou duas jornadas nacionais de alistamento, reforçando a presença da Milícia Nacional Bolivariana — um braço militar formado por civis com forte carga ideológica. Segundo Maduro, são 4,5 milhões de milicianos prontos para defender o país, embora especialistas questionem esses números.
Em tom patriótico, o presidente tem reiterado que a defesa da soberania é “uma obrigação histórica”, enquanto meios estatais convocam voluntários sob slogans como “a pátria não se vende”.
— Não há como entrarem na Venezuela — declarou Maduro na quinta-feira, durante ato com militares, após Washington confirmar o envio de três contratorpedeiros, três navios anfíbios, um cruzador, um submarino nuclear e cerca de 4,5 mil fuzileiros navais para supostas operações antidrogas na região. — Depois de 20 dias contínuos de ameaças e guerra psicológica, estamos mais fortes do que ontem. Nem sanções, nem bloqueios, nem assédio [poderão com a Venezuela].
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Nos próximos dias, três navios lançadores de mísseis americanos devem se posicionar em águas internacionais perto da fronteira com a Venezuela, para o que Washington diz serem operações contra o narcotráfico internacional.
Em julho, o Departamento do Tesouro dos EUA sancionou o chamado Cartel de los Soles, designando o grupo criminoso venezuelano como uma entidade terrorista global comandada pelo presidente Nicolás Maduro, que teve sua cabeça colocada a prêmio por US$ 50 milhões.
Especialistas divergem sobre os riscos de Washington intervir militarmente na Venezuela, com a maioria descartando essa possibilidade, mas não a de uma ação pontual contra Maduro. Ainda assim, a presença militar dos EUA acende uma luz amarela para questões humanitárias, como um possível aumento do fluxo migratório para Roraima, estado brasileiro que faz divisa com a Venezuela.
A cúpula das Forças Armadas do Brasil acompanha a aproximação dos navios e vem monitorando a questão para identificar se haverá algum reflexo no território nacional e a necessidade de reforço de tropas na região. Até o momento, porém, não há nada previsto neste sentido e o tema é tratado com cautela, disse ao GLOBO um militar de alta patente da Marinha. (Com O Globo)