Agosto entrou para a série histórica de Mato Grosso do Sul como o mês com mais feminicídios já registrados no Estado. A marca foi alcançada depois de uma reviravolta em um caso ocorrido em Ponta Porã que, durante semanas, não aparecia nessa estatística.
A morte de Wandete Gois da Silva, de 58 anos, deixou de ser tratada apenas como um episódio de trânsito. Imagens de câmeras de segurança, depoimentos e outros elementos reunidos pela polícia mudaram a linha da investigação e colocaram o marido da vítima, de 49 anos, como principal suspeito de feminicídio.
A nova classificação fez agosto superar janeiro de 2022, que até então concentrava o maior número mensal desde que o feminicídio passou a ter tipificação específica, em 2015. Naquele mês, foram sete vítimas. Em outros sete meses da série, o total havia chegado a seis.
A mudança mostra como a estatística pode ser alterada conforme as investigações avançam. No caso de Wandete, a suspeita de feminicídio surgiu somente depois da revisão das circunstâncias de uma morte que inicialmente havia sido registrada como homicídio culposo no trânsito.
Imagens mudaram o rumo da apuração
Wandete foi atingida por um caminhão na noite de 2 de agosto, no km 102 da BR-463, próximo ao trevo de Santa Puitã, em Ponta Porã.
O veículo era conduzido pelo marido dela. Os dois estavam na região onde ocorria um encontro de caminhoneiros.
Nos primeiros momentos após a morte, a apuração estava concentrada nas condições em que o caminhão era conduzido. Testemunhas disseram que o homem havia ingerido bebida alcoólica, e a ocorrência foi inicialmente enquadrada como homicídio culposo na direção de veículo automotor.
O motorista se apresentou à polícia acompanhado de advogados e acabou preso em flagrante.
O caso, porém, não parou no possível crime de trânsito. A DAM (Delegacia de Atendimento à Mulher) de Ponta Porã aprofundou a análise do material disponível e voltou às gravações feitas no local.
A comparação das imagens com relatos de testemunhas e outras provas levou os investigadores a abandonar a hipótese inicial como única linha de apuração. A morte passou, então, a ser investigada como possivelmente intencional e praticada em contexto de feminicídio.
A PCMS (Polícia Civil de Mato Grosso do Sul) não revelou quais trechos das gravações foram determinantes para a mudança nem detalhou os elementos que sustentam a nova classificação.
Parte dessas informações permanece preservada porque ainda existem diligências em andamento. A investigação deverá estabelecer a dinâmica do episódio e esclarecer o que aconteceu entre o casal antes de Wandete ser atingida pelo caminhão.
Caso muda estatística de agosto
A inclusão da morte de Wandete entre os casos investigados como feminicídio teve impacto direto no levantamento estadual.
O mês, que já acumulava uma sequência de mortes de mulheres, passou a ocupar sozinho o pior resultado mensal da série histórica de Mato Grosso do Sul.
A classificação como feminicídio considera assassinatos de mulheres relacionados à condição do sexo feminino dentro das situações previstas pela legislação.
No caso ocorrido em Ponta Porã, a nova tipificação ainda faz parte da investigação. Caberá à apuração policial reunir os elementos que poderão confirmar as circunstâncias do crime e a responsabilidade do suspeito. (G1MS)
