A desaceleração da criação de empregos e o aumento da inadimplência são os primeiros sinais do desaquecimento da economia brasileira previsto pelo governo e pelo mercado para o segundo semestre, consequência também da alta taxa básica de juros, maior nível desde 2006 — a Selice está em 15% ao ano — mantida nos últimos meses.
Apesar da criação de 129,7 mil vagas formais, o resultado representa uma queda de 32% em relação ao mesmo mês de 2024, e é o pior julho desde 2020. A inadimplência de famílias e empresas no crédito também subiu a nível recorde.
Caged tem pior julho desde 2020
O mercado de trabalho abriu 129.775 vagas formais em julho, segundo o saldo entre admissões e dispensas registradas no Caged, cadastro do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego). Foram criadas vagas, mas o resultado representa queda de 32% ante julho de 2024, quando foram abertas 191.373 vagas com carteira assinada, segundo os dados divulgados ontem.
Foi o pior julho desde 2020, quando foram gerados 108.476 postos, ainda nos primeiros meses da pandemia de Covid-19.
Em junho, o saldo positivo de geração de empregos formais já tinha ficado abaixo de igual mês de 2024. Para economistas ouvidos pelo GLOBO, o segundo mês seguido de queda reforça os sinais de arrefecimento da atividade econômica, após meses de crescimento surpreendendo para cima.
No acumulado do ano até julho, foram criados 1,347 milhão de postos de trabalho, saldo 10,3% abaixo do registrado nos primeiros sete meses de 2024.
Para MTE, juros explicam
Segundo a subsecretária de Estudos do Trabalho do MTE, Paula Montagner, a desaceleração na geração de vagas é reflexo da alta dos juros, que desacelera o ritmo da atividade econômica. Ela citou também as incertezas em relação ao tarifaço imposto pelos EUA às exportações do Brasil.
— A desaceleração é resultado da redução das atividades das empresas, decorrentes da elevada taxa de juros básica, que diminuiu novas contratações, além de incertezas decorrentes de ampliação de tarifas para as exportações — afirmou Paula.
'Sinais mais consistentes de arrefecimento'
Para Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG, o dado do Caged de julho foi o primeiro sinal mais claro de desaceleração da atividade econômica e do reflexo disso sobre o emprego.
Segundo o especialista, a perda de força na geração de postos já vinha sendo esperada em meses anteriores, como efeito dos juros altos, mas o ritmo da economia vinha surpreendendo para cima e postergando esse arrefecimento. Agora, o país parece ter entrado em uma rota de desaceleração mais evidente.
— Começamos a ter sinais mais consistentes de arrefecimento do mercado de trabalho, principalmente da contratação líquida de emprego. Mas ainda é moderado. Os dados confirmam isso — afirmou Serrano.
O economista do BMG lembrou que, embora o BC venha subindo a Selic desde o ano passado, os efeitos de uma política de juros mais restritiva demoram mesmo a aparecer. A partir de agora, a expectativa é que este segundo semestre termine com um saldo de vagas abertas menor do que o verificado na primeira metade do ano.
'Política fiscal é muito expansionista'
Para o economista-chefe da corretora Genial Investimentos, José Márcio Camargo, a política de juros restritiva demorou para atingir o mercado de trabalho porque a política fiscal expansionista do governo — que gastou mais, entre outros itens, com programas de transferência de renda e com o reajuste do salário mínimo, que baliza uma série de benefícios — acaba favorecendo a geração de empregos. Isso dificulta o trabalho do BC, que pretende esfriar a demanda para segurar a inflação.
E esse esfriamento passa por uma moderação no mercado de trabalho.
— Como a política fiscal é muito expansionista, os empregos no setor de serviços continuam fortes. O BC não está conseguindo segurar a parte do mercado de trabalho que depende da demanda, em especial de serviços — disse Camargo.
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Resiliência
Na visão do economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV Ibre (Fundação Getulio Vargas), mesmo com a queda no saldo de empregos na comparação com um ano antes, o mercado de trabalho ainda mostra uma resiliência muito forte.
— Os trabalhadores estão conseguindo emprego com mais facilidade e a renda está subindo. O BC deve olhar isso com mais cuidado — disse Barbosa Filho, acrescentando que o volume de contratações nos últimos 12 meses está na casa de 1,5 milhão, patamar elevado.
Além disso, a taxa de desemprego, medida pela Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), do IBGE, tem se mantido nos menores níveis desde 2012, lembrou o pesquisador do FGV Ibre.
No mercado financeiro, onde analistas e investidores acompanham com lupa os dados sobre mercado de trabalho e inflação para estimar a trajetória dos juros, os dados mais fracos no Caged trouxeram mais confiança de que a inflação poderia estar em trajetória descendente, abrindo espaço para um corte na Selic, o que favorece o apetite por ações das empresas, disse Rodrigo Moliterno, que chefia a área de renda variável da assessoria financeira Veedha Investimentos.
Já para Marianna Costa, economista-chefe da gestora Mirae Asset, os efeitos dos dados do Caged foram limitados, uma vez que ainda refletem um mercado de trabalho pujante.
O maior apetite pelas ações fez o Ibovespa, principal índice da Bolsa, fechar ontem com alta de 1,04%, a 139.206 pontos, aproximando-se de seu recorde histórico. No mercado de juros futuros, os contratos para janeiro de 2028 viram suas taxas caírem um pouco, para 13,28% ao ano.
Já a taxa de câmbio recuou 0,32%, a R$ 5,416. Tudo isso num dia positivo para as cotações das commodities globais, o que favorece a Bolsa brasileira, e de queda nas cotações do dólar mundo afora.
Inadimplência em alta
A inadimplência das famílias no crédito com recursos livres aumentou de 6,3% para 6,5% de junho para julho, maior patamar desde maio de 2013 (quando foi 6,6%), informou ontem o BC (Banco Central). No agregado, incluindo as empresas, os níveis de inadimplência atingiram os maiores níveis desde 2017.
Segundo o chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha, parte do aumento está ligada a uma mudança na forma como os bancos informam os dados para a autoridade monetária, conforme determinação do CMN (Conselho Monetário Nacional), mas não é possível separar os efeitos da nova metodologia do cenário mais amplo do mercado de crédito, marcado por uma taxa básica de juros (a Selic, hoje em 15% ao ano) em níveis que não eram vistos em duas décadas.
No agregado, a inadimplência do crédito com recursos livres, incluindo as empresas, subiu de 5,0% em junho para 5,2% em julho, nível mais elevado desde novembro de 2017. No crédito total (com recursos livres e direcionados), a inadimplência foi de 3,8%, maior patamar desde maio de 2017.
O saldo da carteira de crédito em julho subiu 0,4% ante junho — sendo 0,2% no crédito livre e 0,7% no direcionado. Para Rocha, os resultados de julho mostram a continuidade do movimento de desaceleração do crescimento do crédito.
'Tudo leva a crer em desaceleração'
Segundo Fábio Bentes, economista-chefe da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), os resultados do Caged e o aumento da inadimplência são uma resposta à política de juros restritiva. As dificuldades com as dívidas só não estavam evidentes porque o desempenho positivo do mercado de trabalho vinha acomodando o crédito com juros maiores, mas esse movimento começou a perder força, disse o economista:
— É preciso esperar os próximos meses, mas tudo leva a crer que vamos ter uma desaceleração do mercado de trabalho e da atividade.
Rotativo é destaque
Por modalidade de crédito, o maior aumento na inadimplência para as famílias com recursos livres foi verificado no rotativo do cartão de crédito, com alta de 3 pontos percentuais, de 57,5% em junho para 60,5% em julho, o maior nível da série histórica do BC, iniciada em 2011.
Segundo o BC, quatro bancos informaram juros acima do permitido pela lei. Desde o início de 2024, as taxas do rotativo do cartão não podem ultrapassar 100% do valor da dívida. Ou seja, se uma dívida é de R$ 1.000, a soma dos juros e encargos acrescidos ao débito em aberto não pode ultrapassar R$ 1.000. As instituições com taxas acima do teto em julho ofereciam taxas que iam de 115,6 a até 971,4%. No último caso, o BC ponderou que poderia ser erro de informação.
— Isso é uma evidência possível de infração da lei — disse Rocha. — O BC está acompanhando os casos que indicam percentual acima do permitido em lei, orientando envio correto das informações. (Com O Globo)