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Maria Ruth II

10/11/2017 - 11h36

Raquel Anderson

Maria Ruth estava ali, organizando os pensamentos para o seu estabelecimento, imaginando o imóvel de madeira assobradado, ideia fixa, focada.


Conversara, primeiramente, com um amigo, sobre os seus propósitos para proporcionar uma vida de verdade para as pessoas. 


O amigo, Francisco, adorava as idéias dela, eles comungavam dos mesmos ideais.


Num domingo de bestagens, sentada na taipa do açude com um gravetinho na mão, escrevendo ideias, Francisco apareceu acompanhado com um sujeito diferente, novo peão, um cara enigmático, meio caladão, mas com um sex appeal INEXPLICÁVEL!


Maria Ruth arrepiou-se, sentiu três tipos de medo: sair do foco, cair de quatro e desvirtuar o sujeito, afinal, para o olhar empreendedor dela, ele era um cliente potencial.


Segurou a onda, conversou com eles normalmente. Francisco, discreto e leal, não tocou no assunto dos planos da amiga, ficaram por ali, falaram amenidades.


Maria Ruth avisou ao seu cérebro, imediatamente, que era pra ficar tranquilinho, sem delongas com desconhecido....mas, já disse Caetano:


“ A vida é real e de viés...”


Maria Ruth evitou, disfarçou e seguiu a vida. O sujeito estava ali de passagem, apenas para uma empreitada.


Encontraram-se poucas vezes, aquilo que é e não é, esquenta e esfria, olha e não vê, sente e não admite.
O tempo da chuvarada chegou no pantanal, os dias em que a lida é interrompida, ficam espichados, nostálgicos e os peões ficavam por ali, peperecando no galpão, trançando laço, enrolando um paierinho, limpando as botas, ariando a guaiaca, faxinando o alforge, tomando tereré.


O sujeito enigmático dava uma olhadas “ de acordo” para Maria Ruth e, numa dessas, ela teve que ir até o galpão levar um recado da cidade para Francisco, aproveitou para servir tereré e engataram numa prosa ajeitada.


Maria Ruth, com o comando do seu cérebro em modo avião, deletava seus devaneios femininos e tocava a vida.


Nasceu uma amizade que queria ser outra coisa entre eles....mas era amizade, com olhares contidos...nem tanto.


Maria Ruth, intensa, carente, apesar dos comandos cerebrais, percebeu, depois de uns seis meses, que o moço não ia embora, que podia dar uma chance para a intensidade dela...


E as trocas de prosa esquentavam e esfriavam, ela sempre puxava os assuntos, elogiava, agradava, dava atenção e deixou cair o fósforo da resistência, aceso, nasceu um foguinho na areia molhada da chuva pantaneira, um fogo manso que não evoluía e nem apagava completamente, mas o ardor dentro de Maria Ruth já era labareda e ela, humana, queria mais um pouquinho, um passeio, um carinho, um elogio, um resbalão sem querer querendo, um afago no cabelo, mas, nada....


Um dia Maria Ruth foi ao mato à procura de flores para enfeitar a casa, parou debaixo de um ipê rosa e ouviu som de guinchos, tirou o seu binóculo do sapicuá e viu um casal de macacos namorando, eles estavam fazendo catação um no outro, com expressões de felicidade e prazer, sorriam, abraçarvam-se e copulavam.


Maria Ruth olhou para dentro de si, percebeu o quanto ela estava sendo permissiva com as migalhas que recebia, o quanto ela ficava com o “pires na mão” nutrindo esperanças de uma aproximação que não acontecia, logo ela, tão intensa, tão doadora de cuidados.


Maria Ruth julgou ser menos autêntica que os animais, viu que eles não fazem cu doce, não precisam esconder-se atrás das vaidades, dos medos de entregar-se. Pensativa, correu para casa, com as flores na mão, murchas pelo calor da sua pele, abriu a gaveta, pegou o primeiro livro que encontrou, reconfortou-se na cama, abriu o livro, aleatoriamente, numa página qualquer e encontrou:


“o mais sublime dos nossos sonhos pode germinar no mais terrestre de nossos solos nutrizes...e uma coisa quando é uma asa, outra coisa quando serve de muleta.”


Maria Ruth percebeu o quanto caminha com os pés nus pelas matas da vida, o quanto a sua interiorização a faz extrair as impressões e a sedimentação do contato com as coisas, o quanto empilha travesseirinhos, impedindo que o outro a veja...


Virou a página e encontrou:


“Perder o hábito da meia-medida para viver resolutamente na totalidade, na plenitude e na beleza.”
“O artista, mais que o amante, pode dar livre curso à imaginação, não estando limitado, como este, pelo objeto de seu amor, coisa concreta. Ele cria uma realidade nova, enquanto o máximo que pode fazer o amante é enfeitar essa realidade com seus fantasmas. Por essa razão, em vez de se ater e repousar na harmonia da obra que produziu o criador, a poesia do amor vagueia, sempre incompleta, através da totalidade da vida, trágica por não poder se libertar de seu objeto nem se limitar a ele.”


Sonolenta, Maria Ruth sentiu, o que se vagueia em nós, e nos impede de alçarmos os voos da coragem, das atitudes que o tempo não permitirá outra vez, outros desejos, outros beijos, o curso da vida interrompido, a miséria humana de ser perdido, ter perdido....


Maria Ruth adormece...

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